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Questão de prioridade

Mais de 80% das cidades brasileiras enfrentam problemas relacionados às drogas, aponta um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Para 90% dos gestores entrevistados, o crack é o principal desafio. Os números contradizem a avaliação da secretária nacional de políticas sobre drogas, Paulina Duarte, no final do ano passado, de que o governo nunca reconheceu o crack como epidemia, isso é uma grande bobagem.

Dizer que o crack é uma grande bobagem é, no mínimo, imprudência. Não há dúvidas de que estamos diante de um grave problema de saúde pública. A droga cada vez mais acessível alcança todos os setores da sociedade. Mas vale lembrar que a disseminação do crack tal como assistimos não é novidade para aqueles que trabalham com dependência química. Na verdade, há tempos, cidadãos mais atentos têm chamado a atenção para a questão e reivindicado soluções.

Infelizmente, estamos bem longe de resolver o impasse. O ponto aqui não é defender este ou aquele modelo, apenas analisar os fatos. Dos R$ 124 milhões previstos para o combate as drogas em geral, o governo investiu apenas (pouco mais) de 4%. Assistência e prevenção são norteadas por ações tímidas e extremamente pontuais. Os problemas começam já na rede de atenção básica, deficitária. Faltam profissionais capacitados, medicamentos, leitos para internação. Mais ainda, falta estratégia: sem uma política pública de prevenção e assistência bem articulada não chegaremos a lugar algum.

O primeiro passo é valorizar o conhecimento científico. Não é possível conduzir o tratamento de um usuário baseado em achismos. É a evidência técnica aliada à prática clínica o subsídio para uma assistência eficaz. Precisamos de uma abordagem ampla e detalhada para estabelecer o padrão de consumo da droga no país. Nos últimos vinte anos, apesar de ser crescente o número de pesquisas, não há um levantamento realmente estruturado (mesmo com o incessante apelo dos especialistas às entidades governamentais). Ou seja, ainda sabemos pouco ou quase nada sobre o crack no Brasil.

Mas a falta de informação não pode justificar os inúmeros equívocos na condução das políticas públicas em relação às drogas. Para uma substância de efeito devastador como o crack, trata-se de enxergar o óbvio. O consumo da droga não é fato isolado. Apesar de divergências em relação à chamada teoria da porta de entrada, alguns estudos certificam que há sim um antecedente de abuso de álcool ou tabaco. E em geral a primeira droga ilícita costuma ser a maconha. Essa progressão normalmente é percebida até os 30 anos. Entre os mais velhos, antecede o consumo do crack medicamentos e/ou cocaína aspirada e injetada.

Por isso, prevenção é estabelecer também uma legislação mais rígida em relação às substâncias lícitas, impondo medidas restritivas à comercialização e à publicidade contrariamente, a MP 540 tem como objetivo flexibilizar as propostas da Anvisa em relação ao tabaco; sem falar na Lei Geral da Copa e a possibilidade do consumo de bebidas alcoólicas nos estádios.

Independentemente de qualquer posição defendida, não há nenhum prejuízo para o país. Pelo contrário, o ônus para o sistema público de saúde seria muito menor. Mas o fato é que, se a prevenção é tímida, a desassistência para o crack ou qualquer outra droga é quase crônica.

Para reverter esse quadro é iminente reiterar o compromisso de estabelecer o combate ao crack como prioridade. Ninguém afirma que é ou será fácil, mas minimizar o problema nos distancia cada vez mais da solução e torna tudo ainda mais difícil.

Joaquim Melo
Presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD)
Artigo publicado no jornal O Globo, de 12 de janeiro

Data: 20/01/2013


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